Inflação em queda

2017-12-27T11:05:36-02:00 13/03/2017|Categories: O Globo|Tags: , , , |

IPCA em fevereiro é o menor em 17 anos, e analistas já preveem taxa perto de 4% em 2017

Daiane Costa

Ao registrar a menor taxa para o mês em 17 anos, a inflação de fevereiro, de 0,33%, derrubou a taxa acumulada em 12 meses para 4,76%. O índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA), divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), levou o mercado a revisar as projeções para o índice fechado de 2017, que agora convergem cada vez mais para perto de 4%. Também aumentaram as apostas de um corte maior da taxa básica de juros Selic (hoje em 12,25%), de 1 ponto percentual em vez de 0,75, na próxima reunião do Copom, marcada para abril.

No bimestre, a inflação ficou em 0,71%, o menor resultado do Plano Real. A surpresa dos dados de fevereiro, inferiores ao esperado pela maior parte do mercado, foi a queda dos preços dos alimentos. Contrariando o histórico dos três primeiros meses do ano, quando esse grupo normalmente tem alta devido à redução de oferta causada por excesso ou falta de chuvas, houve deflação de 0,45%. Foi o maior recuo dos alimentos em fevereiro desde 1994.

 

QUEDA GENERALIZADA NA INFLAÇÃO

Mas o que mais chama a atenção e reforça a trajetória consistente de queda da inflação, segundo economistas, é o fato de a queda ser generalizada. Levantamento da economista Maria Andreia Lameiras, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostra que, se desconsiderados os preços dos alimentos, a inflação não só continuaria caindo como recuaria ainda mais. No acumulado em 12 meses, teria ficado em 4,86% já em janeiro, quando a alta foi de 5,35%. Em fevereiro, teria ficado em 4,55%.

– Isso demonstra que, no conjunto, todos os itens mostram desaceleração – comenta Maria Andreia.

Daniel Silva, economista de Brasil do Modal Asset, já aposta numa inflação de 4% em 2017 – no ano passado, o IPCA fechou em 6,29% – e reforça a análise da especialista do Ipea:

– Há a perspectiva de uma oferta grande de alimentos in natura diante de uma demanda muito fraca, então, a tendência é os preços dos alimentos continuarem caindo. E os serviços, que resistiram por muitos meses, também estão num processo de desaceleração, o que mostra que a desinflação não é mais localizada.

 

ALIMENTAÇÃO EM CASA: ALTA DE 2% EM 2017

Nas contas de Silva, a inflação da alimentação em domicílio, que fechou 2016 em quase 10%, não deve passar dos 2% este ano, assim como a dos serviços, que, devido ao mercado de trabalho fraco, deve ficar em 5,2%, depois de encerrar 2016 em 6,5%.

Para André Braz, economista do Ibre/FGV a queda dos alimentos nesse primeiro semestre – em janeiro, o aumento registrado, de 0,35%, também foi inferior ao esperado – será fundamental para se alcançar um resultado abaixo do centro da meta perseguida pelo Banco Central, que é de 4,5%:

– O primeiro trimestre é importante porque ele sofre efeitos sazonais fortes. Além de os resultados estarem baixos, na frente os efeitos vão favorecer ainda mais a desaceleração da inflação. Há alimentos que, se não subiram agora, não vão subir mais; e outros que, apesar de registrarem queda na margem, estão com variações acumuladas ainda altas e têm muita gordura para queimar ao longo do ano.

É o caso do feijão preto, que caiu 9,2% em fevereiro, em relação a janeiro, mas, nos últimos 12 meses, aumentou 39%; e das frutas, que caíram 2,46%, mas, nos 12 meses encerrados em fevereiro, acumulam alta de 10%.

A principal pressão individual para baixo no resultado geral veio do item passagem aérea, cuja queda de 12,29% gerou impacto negativo de 0,05 ponto percentual e quase anulou o 0,06 ponto dos ônibus urbanos, que tiveram aumento de 2,33% nas tarifas em fevereiro.

 

EDUCAÇÃO FOI O QUE MAIS PESOU

O grupo educação, com alta de 5,04% e impacto de 0,23 ponto percentual, foi responsável por 70% da taxa geral de fevereiro. Essa elevação, no entanto, foi a menor para o segmento em fevereiro desde 2010 (4,53%). Ela reflete os reajustes habitualmente praticados no início do ano letivo, especialmente nas mensalidades dos cursos regulares, cujos valores subiram 6,99%, gerando o mais elevado impacto individual sobre o índice do mês (0,21 ponto percentual).

No caso da educação, o Rio teve a maior taxa de inflação para o mês, de 0,68%, entre as dez regiões metropolitanas mais três capitais pesquisadas. Os preços tiveram alta de 6,4% em fevereiro, em relação a janeiro. De acordo com Braz, da FGV, 20% da inflação geral dos cursos regulares, de 6,99%, são contribuição do Rio. Ele destaca o fato de os cursos regulares não serem tão sensíveis aos ciclos econômicos quanto outros serviços livres, como salão de beleza, lavagem de carro e cinema:

– A escola é um custo mais difícil de você tirar do seu orçamento. Já os cursos diversos, de informática ou idioma, que são cortados mais facilmente, estão com inflação bem mais baixa, porque sentem mais a queda da demanda.

 

EXPECTATIVA DE CORTE MAIOR DE JUROS

Para o mercado financeiro, a notícia da queda de 0,33% da inflação, facilita a tarefa do Banco Central de acelerar o ritmo de cortes de juros já no próximo mês. Após a divulgação do dado pelo IBGE, o Itaú Unibanco passou a prever mais quatro cortes de 0,75 ponto percentual na Selic e outras duas reduções de 0,50 ponto percentual este ano. Segundo a previsão, os juros cairiam de 12,25% para 8,25% no fim do ano, em vez dos 9,25% que se esperava anteriormente. Já a projeção do banco para o IPCA do ano passou de 4,4% para 4,2%.

– A revisão dos juros ocorreu devido à sinalização do BC de que pode ir mais rapidamente nesse corte e por percebermos que a inflação está caindo com uma boa composição e também de forma mais rápida do que tínhamos previsto – explicou Felipe Salles, economista do Itaú Unibanco.

Ele ressaltou que, ainda que pesem as previsões de aprofundamento do desemprego, as trajetórias consistentes de queda da inflação e dos juros são fundamentais para uma retomada da atividade econômica em 2017, ajudando a recompor o poder de compra e tomada de crédito dos brasileiros. Nas contas do banco, o desemprego, que hoje é de 12,3%, terá atingido, em média, ao fim de 2017,13,1% da força de trabalho brasileira.